A Inovação e a Indústria de Fitoterápicos




A inovação em uma economia globalizada ganhou, nos últimos anos, destaque como eixo estruturante da competitividade, do crescimento e da rentabilidade das empresas. A capacidade de inovar envolve temas como estratégia, processos, cultura e clima organizacional, para inovações incrementais em produtos e serviços chegando as inovações que modifiquem o modelo de gestão ou de negócios da empresa. Estes processos incluem atividades em várias etapas científicas, tecnológicas, organizacionais, financeiras e comerciais.

A inovação configura-se como um processo irreversível e não pode estar limitada por estratégias reativas, requerendo antecipação por intermédio dos estudos sobre a evolução do comportamento dos cenários ao longo do tempo e das perspectivas de futuro.

Muitas empresas estão modificando seus modelos de inovação, dentre elas, as indústrias farmacêuticas de fitoterápicos. O setor farmacêutico é um dos setores industriais que mais investem em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos e o conceito de inovação aberta através do compartilhamento de ideias e projetos, vem ao encontro das necessidades deste ramo industrial, uma vez que busca minimizar os fatores de risco como tempo e custo elevado.

Durante a maior parte da história da humanidade, a produção de medicamentos se baseou na utilização de produtos naturais vegetais. Inicialmente, esses materiais eram utilizados em estado bruto, em geral como extratos de reduzida elaboração. No princípio do século XX, foi possível identificar e extrair os princípios ativos presentes nos extratos dos produtos naturais responsáveis pelos seus efeitos curativos.

No Brasil, o Ministério da Saúde aponta que até 1930 as plantas medicinais, seus derivados e os medicamentos fitoterápicos eram os principais recursos terapêuticos.
Desde então o uso de medicamentos derivados de plantas vem crescendo mundialmente, seja pela busca de soluções mais saudáveis nos países desenvolvidos ou pela dificuldade de acesso a medicamentos sintéticos nos países menos desenvolvidos

Apesar da grande diversidade existente no Brasil e da capacidade tecnológica da indústria farmacêutica instalada no país, de acordo com pesquisa patrocinada pela ABIFISA o mercado de fitoterápicos se manteve em 2017 na faixa de 3% do mercado farmacêutico total, com indicativos de queda. O levantamento realizado por Hasenclever, em 2009, mostrava que o mercado brasileiro, quando comparado com outros mercados, era cerca de 40 vezes menor que o mercado global, 16 vezes menor que o mercado europeu e 12 vezes menor que o mercado americano.

No entanto, o segmento industrial de medicamentos fitoterápicos ocupa um espaço significativo na consciência do consumidor no mundo desenvolvido e é uma forma importante de cuidado da saúde em países em desenvolvimento. Há um aumento do interesse das comunidades médicas e científicas em dar a eles uma base técnica, que é consolidada por políticas de estímulo a pesquisa e ao uso destes produtos.

Como em toda a indústria farmacêutica a inovação no setor de fitoterápicos envolve altos riscos de natureza técnico-científica, comercial e financeira por demandar intenso investimento de capital para o desenvolvimento de novos produtos e processos, de forma antecipada, estando diretamente relacionada a capacidade de geração de caixa.
Para incentivar este processo se fazem necessárias fontes de financiamento deste risco.

Práticas de inovação aberta tem demonstrado estarem alinhadas com o comportamento das empresas inovadoras. Neste sentido foram identificadas algumas práticas mais alinhadas com o setor de fitoterápicos, como as listadas a seguir:

  1. Geração de ideias através da cadeia de valor – onde os consumidores são incentivados a participar da criação de produtos, usando a internet como forma de comunicação;
  2. Licenciamento de patentes de novos produtos;
  3. Parcerias de co-desenvolvimento ao nível da cadeia de valor, onde em uma primeira fase são realizados acordos comerciais com pequenas empresas inovadoras e na segunda são realizadas parcerias com grandes empresas farmacêuticas;
  4. Cooperação entre empresas e o sistema científico e tecnológico. O conhecimento brasileiro está fortemente concentrado nas universidades e centros de pesquisa que tem seus pesquisadores trabalhando de forma distribuída, o que torna difícil identificar quais as principais pesquisas em desenvolvimento, quem são os pesquisadores, quais as principais descobertas e possibilidades de aplicação. A identificação de institutos de pesquisa e universidades, para o desenvolvimento de uma pesquisa por encomenda é um processo complexo, mas é um dos melhores caminhos para a empresa que busca rupturas tecnológicas;
  5. Geração de receita a partir de Pesquisa e Desenvolvimento interno;
  6. Estabelecimento de consórcios não competitivos – (redes de inovação) as atividades em rede teriam a capacidade de minimizar alguns aspectos negativos do cenário da fitoterapia no Brasil;
  7. Rede de oportunidades de valor via internet ou value opportunity webVOW, um processo de captar e analisar informações dos usuários da rede para identificar oportunidades de desenvolvimento de novos produtos.

De acordo com matéria publicada no Valor Econômico em 2011, as empresas brasileiras não têm a tradição de inovar, pois somente 16,8% apresentaram algum produto ou serviço novo. O segmento industrial fitoterápico é formado em sua grande parte por empresas de pequeno e médio porte onde 53 % das empresas deste porte não apresentaram nenhuma inovação, desta forma, podemos afirmar que este é um segmento pouco inovador apesar de utilizar várias práticas da inovação aberta para o desenvolvimento de seus produtos. As que escolhem a inovação apresentam melhorias na produção, na produtividade e no faturamento, no entanto, para vencer o desafio da inovação necessitam de incentivos e principalmente vencer a barreira cultural interna para a evolução tecnológica.

Anny M M Trentini – Farmacêutica Industrial, Mestre em Tecnologia pela UTFPR

  • Graduada em Farmácia Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria (1985), pós-graduada em Gestão de Pessoas pela PUC/PR, especialista em administraçãodesenvolvimento gerencial pela FAE/PR e gestão de empresas, mestre em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) na área de inovação.
  • Atualmente diretora de Pesquisa Desenvolvimento e Inovação do Grupo FQM – empresas do Grupo Roemmers.
  • Experiência na Indústria farmacêutica com ênfase em gestão de projetos de novos produtos, em especial fitoterápicos.
  • Membro do Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos /MS, presidente da ABIFISA – Associação Brasileira da Indústria de Fitoterápicos e Suplementos Alimentares.

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